terça-feira, outubro 07, 2008

NO PALCO DA VIDA

Dou conta de mim aqui sentada, na plateia deste pequeno teatro. Ninguém me chamou, ninguém me pagou o bilhete para entrar, entrei inconsciente. Escolhi uma cadeira ao acaso e neste momento só me dou conta que estou aqui sem saber como ou porquê. Apareci aqui num silêncio que não se dá conta, um género de rapto fulminante de alma, sentimos que fomos transportados para longe de nós, sabendo que somos nós.
Encontro-me sentada na segunda fila, numa cadeira vermelha confortável, ligeiramente desviada do cento, à esquerda. Sente-se aqui uma atmosfera leve, de paz, um sossego que me embala, um silêncio tranquilo. Diria que é aquela solidão que nos sabe bem.
Abre-se o pano vermelho. Sem apresentações, sem pancadas de Molière. Abre-se e fecha-se o pano ao som do estalar de dedos, ao som do pestanejar dos meus olhos, ao ritmo das memórias que me escapam perdidas pelas fissuras marcadas das recordações. Recordações, memórias, uma vida que vejo agora a surgir em palco.
Vejo mil imagens, demasiados cenários, pessoas de que quem já me tinha esquecido mas que por alguma razão me encontro com elas agora. Vejo-me sempre em cena, perdida no meio daquelas almas pardas que se fundem e instantaneamente desaparecem de cena. Tudo em movimento, num rodopio de piscar de olhos, novo cenário, novas falas, novas gentes, novas emoções. Encontro-me ali, sem falas, sem deixas, por vezes sem adereços... sem nada!
Sei agora que a cena em palco é a minha vida. O passado longínquo, o passado recente, o meu presente! Ao aperceber-me que ali está a minha vida tento enganar o encenador, ou alguém que desconheço, e fecho os olhos no futuro! Mas o futuro é apenas um cenário de fundo preto, de luzes muito brancas sem nada que se consiga ver, indefinido, indecifrável, ilegível. O futuro não passa neste palco, no palco da vida não há futuro, claro! Esse também não interessa nada agora! Não interessa para hoje.
Marco aqui encontro com as pessoas que magoei, as que amei, as que passaram pela minha vida e saem pela esquerda alta, pessoas que são apenas figurantes pois já nem os traços ou o nome recordo. Vivo as emoções que me caem no coração, caem como uma torneira em ping-ping contínuo. “ping, ping, ping, pung, ping, ping, pung”, dissonantemente me fazem chorar, outras vezes me deixam sorrir. Vejo-me aqui a crecer a evoluir, não deixando de ser eu. Reparo que fui boa, fui má, deixei de ser e agora sou!
Sinto-me viva nesta cadeira, sinto o sangue a pulsar nas veias, sinto o coração a bater, sinto as lágrimas que caem. Sinto as sombras que entram nesta sala e se sentam discretas atrás de mim. Sinto a sua presença espiritualmente física. Não olho para trás porque sei quem são, não sei onde se sentam, o lugar que ocupam não me parece importante, mas sei quem são! Talvez uma ou outra me despertem a curiosidade e me tentem a olhar, mas não, não, continuo a olhar para o palco. Permanece o silêncio, a paz, o conforto das várias existências nesta sala.
As cenas em palco são de facto a minha vida! O arrepio na pele, a respiração que quebra, o baixar do sobrolho de enorme constrangimento disto ou daquilo. Decido que escolho as cenas que quero ver, as que quero recordar. Escolho! Quero escolher como se fizesse um zapping. Ai um zapping de olhos abertos, vejo segundo e segundos de cenas que não quero, que não queria que existissem mas estão lá esquecidas, elas estão lá, eu sei! Estas cenas que ficam no ar por certo é Molière que as escolhe porque eu não sou! Eu não as queria ver, jamais as escolheria, bem sei quem está nesta sala!
Sinto a agitação dos vultos que se sentam atrás de mim, sei que a sala não está cheia, mas já chegou quase toda a gente que tem bilhete. Todo este movimento é paralelo mas distante da atenção que dou ao que se passa à minha frente. Não me distrai, não me incomoda, simplesmente se está a passar nas minhas costas.
Entro na minha minha vida, como se entrasse nesta montanha que me ocupa o horizonte do olhar. Entro disposta a tudo. Vejo as árvores grandes que foram sementes, vejo as pequenas que serão grandes, vejo as pedras que devem ter rebolado pela encosta, vejo vestígios de fogo aqui e ali, vejo a recuperação do fogo salteado a verde acastanhado, vejo esta casa que não estava aqui, vejo as ruínas de outra que marcou a história das gentes. Não vejo uma simples montanha, vejo-lhe a alma! Vejo a constante mutação, o movimento, a evolução, a seiva que corre acelerada fazendo dela uma montanha viva! É assim que estou a olhar para mim. A ver onde foi o fogo, onde morreram as árvores, onde nascem as novas, para onde correm os rios, quem deslocou as pedras. Quem passa, quem só olha e quem realmente me vê! Quem entra e quem passa...
Passou na sala um vulto que me estremeceu! Sentou-se demasiado próximo de mim, no mesmo corredor, a duas cadeiras do meu lado direito. Eu não tinha intenção de me distrair e quase consegui! A tentação de movimentar ligeiramente a cabeça para ver o vulto desconhecido foi maior. Foi a audácia e o atrevimento com que o fez que mereceu a minha atenção. Na realidade foi a intensidade da sua presença que me distraiu. Sem trocar palavras entendemo-nos inteiramente, estranhei esse entendimento tão intimo. Perdi a cena, perdi alguma coisa em palco, não sei o quê, nada de importante por comparação a este momento. Soube que a partir deste momento iríamos assistir em palco a um crime, sem culpados e sem culpa. Percebeste aqui que fizeste primeiro parte de mim e só depois entraste na minha vida? Sinto-te aí, cúmplice de mim, a querer partilhar! Eu vou partilhar contigo, diz-me que cena queres ver em palco e eu mostro-te, eu abro o pano para ti amor!
Estamos sozinhos na sala, não te estranho, sei quem és, talvez um reflexo de mim, parte da minha alma perdida, partes de almas perdidas que se encontraram e se fundiram no mesmo pedaço de espelho partido.
Vejo agora as cenas em palco ao teu lado. Deixa-te estar. Fica em mim, fica na minha vida. Ficarás sempre em mim, porque num encanto da vida aconteceu-me o amor. O amor não se faz, não se procura, o amor nasce em nós, sem culpa e sem pecado. Originalmente deixamos de ser nós, somos um pouco mais. Somo nós e o outro pedaço de nós, e jamais poderemos esquecer um pouco daquilo que somos.

3 comentários:

Chinoca disse...

Bem, quase que me senti no cinema a ver o teu filme!! :)
Tão bem descrito "o filme da vida". Não pares de escrever!
Beijo

Anónimo disse...

É tão bom saber que sou eu o teu amor!Sei que a esta hora está muita gente a morrer de inveja. Nem vale a pena tentarem!

Tentativas Poemáticas disse...

Olá Sofia
É uma sortuda! Há alguém que diz: ADORO-TE! Fiquei cheio de inveja ('tou a brincar). O António Pinho Vargas, quando regressou da Holanda disse em entrevista a um jornal: "-Portugal é o país com mais invejosos por m2."
Os seus textos são o espelho da sua alma. São também textos poéticos.
Faltam-lhe os comentários que bem merecia. Ao princípio desanimei. Pensava: "-Ninguém me lê!". Hoje, felizmente, já fiz amigas e amigos aqui, no Brasil, na Madeira...
Tenho visto os meus poemas serem publicados nos outros blogues, aqui, no Brasil, na Madeira...
Mas é preciso trabalhar para que isso aconteça. Vale a pena, acredite!
Continue a deliciar-nos com as suas lindas e tão sensíveis quanto profundas palavras.
Voltarei.
Um abraço com ternura.
António